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View Full Version : Muller no Hotel Hessischer Hof



Orpheus
27-06-2005, 20:04
O culto da música, pela musica, vazada pela simples paixão ao ser, ao sentir, num cada vez mais intrínseco comercio de lodo musical, onde a música não é arte, onde os interessados não se manifestam ou associam, e os desinteressados pela arte em si acabam por fazer fortuna, tem-me surgido de longa data este grupo, é assim mesmo que os Mão Morta se me apresentam, como o contrapeso ao flácido mundano e banal, uma revigorada força de álbum para álbum, um grito mudo primitivo mas mordaz que deita por terra qualquer recomendação em jornais de outrora irreverência e luta, hoje não mais que montra entre o tronco e o braço de um qualquer passante praça fora.
Admitindo sempre tudo como muito meu, pessoal, arrasto-vos a um singular momento ao vivo com este singular grupo, cantarolava-mos nós já as ácidas letras da “Facas em Sangue” e qual não é o nosso terror quando o Adolfo Luxuria Canibal ao revesso do povo e logo depois de ter insurgido “matem-me esse homem” para um insatisfeito com a escolha musical até então pois queria a “Budapeste”, no local decide trocar as letras presentes em qualquer cardápio do disco, e contra a massa deixar-se levar ao improviso, nas nossas caras estampava-se cada vez mais para além da admiração o fulgor do momento pois quem conhece sabe que a qualquer segundo poderia estar a ser feita historia, por aqui mais uma vez admito a singularidade deste longo projecto que são os Mão Morta.
Este álbum é fruto de uma série de concertos em 1997, no pequeno auditório do CCB, no Garcia Resende em Évora e em Braga no Teatro circo, se bem que a gravação em si é no CCB.
Não se trata de um qualquer punhado de músicas da banda, nada disso, é um disco singular , é uma fusão do poemas de Heiner Muller com a música deles com a mão do Adolfo., e para quem achava aquela poesia demasiado negra e real tem aqui a oportunidade de a reviver mas desta forma ainda mais acutilante e sentida, vinco o uso do megafone como algo que surge fantasmagoricamente penetrante e real, a sintetização e computação em tempo real aumentaram a êxtase do momento e o som frenético do conjunto orquestral restante surge em passos de ritmo , sentimento, momento e sentido de espaço.
A voz é-nos servida mais tenebrosa e gasta que nunca, não corre uma brisa, ficamos entregues ao sufoco, abandonados a uma melodia trazida por um ar já respirado, co-habitam a morte e o nascimento, “...eu sou a faca com que o morto arromba o seu caixão...” grita-se, “...entre o dois vezes dois e o B A BA nós mijávamos a assobiar contra o muro da escola...” sonha-se, “...um pai morto teria sido talvez um melhor pai...”, constata-se.
É disco de terror, de solidão, morbidez realista, é o nosso dia a dia, a realidade que não queremos aceitar, talvez seja o nosso anjo do desespero, talvez fosse até grito de revolta se não fosse tão real.
Não há forma de ficar indiferente a este disco, Anjos e Demónios que co-habitam em desespero, o real que se nos afronta está lá, a nossa raiva a nossa sede de vingança, o nosso olhar perverso que escondemos, a bota cardada que nos habita, como a nossa paz enquanto se caminha para um fim, “...morro demasiado lentamente...”.
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Marcos Caetano
Aka Orpheus